Um projeto a caminho da frustação

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Um projeto a caminho da frustação
Os problemas não são poucos – fechamento de unidades de produção, elevado nível de endividamento das empresas e concorrência desigual, entre muitos outros. O setor sucroenergético brasileiro, no entanto, ainda vê possibilidades de recuperação no futuro, principalmente por causa da crescente preocupação mundial com o desenvolvimento de energias renováveis, mais limpas que os combustíveis fósseis.
 
Assim, continuam os investimentos em novas tecnologias, como a do etanol gerado com base em celulose (o chamado etanol de segunda geração) e em mecanização nas lavouras, e se expande o mercado de venda de energia elétrica excedente gerada na cadeia de produção da cana.
 
Esse cenário foi apresentado ontem pela diretora-presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (UNICA), Elizabeth Farina, convidada para uma palestra na reunião do Conselho de Economia da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), coordenado pelo economista Roberto Macedo.
 
De acordo com Elizabeth, embora o Brasil tenha alcançado um alto nível de produtividade para uma cultura agrícola tão antiga no território nacional, a situação das usinas nos últimos anos se deteriorou de maneira significativa. Se antes, no início dos anos 2000, o fornecimento do etanol como um combustível alternativo gerou euforia entre as empresas do setor (euforia em grande parte fomentada pelo próprio governo), depois da crise de 2008 o quadro mudou radicalmente.
 
“A partir de 2002, fatores conjunturais e ações do governo impulsionaram o setor sucroalcooleiro. Alguns exemplos são o alto preço do petróleo no mercado internacional, o sucesso da tecnologia dos carros flex e a taxação adicional da gasolina, ao mesmo tempo em que o ICMS do etanol era reduzido. As empresas acreditaram na solidez desse cenário e investiram”, disse Elizabeth.
 
Ela mostrou, durante a apresentação, que o ambiente se tornou muito desvantajoso para a cadeia sucroalcooleira a partir da crise de 2008 principalmente em razão das políticas que o governo federal escolheu para combater os efeitos da turbulência sobre a economia brasileira.
 
]O Executivo decidiu incentivar a produção e o uso de carros, como forma de evitar que a economia parasse – para isso, zerou impostos da produção de veículos e resolveu manter em níveis baixos o preço da gasolina. Foi nesse contexto, observou a dirigente da UNICA, que se desenhou o controle do preço interno da gasolina que até hoje derruba a competitividade do etanol.
 
O setor sucroalcooleiro não conseguiu enfrentar um concorrente (a gasolina da Petrobras) cuja fixação de preços nada tem a ver com a lógica econômica tradicional (vender por um preço mais alto do que o preço de compra). Desde a crise de 2008, a Petrobras acumula saldos negativos nas suas transações com o exterior. “Não é por acaso que o déficit da balança comercial do setor sucroalcooleiro tem forte correlação com o déficit da conta petróleo”, afirmou Elizabeth, referindo-se à linha das contas externas do governo onde é contabilizado o comércio exterior da Petrobras. Nos últimos anos, foram fechadas, no Brasil, 44 usinas sucroalcooleiras e outras 33 estão em recuperação judicial. Nas usinas fechadas, foram perdidos 40 mil empregos diretos.
 
Conforme os dados da UNICA, mesmo diante das dificuldades, há bastante movimento no mercado sucroalcooleiro brasileiro. Além da participação cada vez mais relevante de gigantes estrangeiras no Brasil – hoje operam aqui, com posições importantes, empresas como Bunge, British Petroleum e Tereos (cooperativa francesa) e Renuka (indiana) –, o setor investe forte em mecanização. De 2006 a 2012, foram investidos US$ 4,5 bilhões em máquinas para o trabalho nas lavouras.
 
A UNICA também tem apostado em programas de treinamento de mão de obra. “Já existem muitos trabalhadores que se qualificaram e conseguiram deixar o serviço duro do corte da cana para operar máquinas bastante sofisticadas”, disse.
 
A agenda da entidade que Elizabeth assumiu há cerca de um ano e meio inclui o debate de assuntos como a real importância, na visão do governo, da participação do etanol na matriz de combustíveis do País, o acerto de diferenciais tributários que afetam a produtividade do setor, a presença do etanol na chegada da tecnologia de carros híbridos, a melhora das condições dos leilões de energia elétrica (já que cada vez mais usinas veem crescer a participação da venda de eletricidade excedente no faturamento) e o incentivo à inovação tecnológica.
 
A cadeia sucroalcooleira terá a oportunidade de discutir esses temas com os três principais presidenciáveis – a presidente Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) – em um grande evento em São Paulo, no dia 2 de junho.


Fonte: Jornal Diário do Comércio

 
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