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Agricultores estão migrando para outras linhas de crédito que apresentam menos entraves técnicos e burocráticos
Carlos Guimarães Filho
Criado para incentivar a ado­­ção de técnicas agrícolas conservacionistas, o programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC) está perdendo força entre os agricultores brasileiros. Faltando menos de dois meses para encerrar o atual Plano Safra, R$ 1,7 bilhão, menos da metade dos R$ 4 bilhões disponíveis, foi tomado pelos produtores. O valor representa redução de 17% frente aos R$ 2,3 bilhões liberados no mesmo período do ciclo 2012/13 (julho/março).
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Desde a estreia na safra 2010/11, o ABC não chegou a empolgar o setor. Na ocasião, apenas 0,3% (R$ 5,9 milhões) dos R$ 2 bilhões anunciados foram solicitados pelos produtores. De acordo com as entidades do setor, a dificuldade de incorporação ao agronegócio nacional é reflexo da burocracia para preparar o projeto, que passa por laudos técnicos, licenças ambientais e exigências dos agentes financeiros.
 
“O projeto do ABC traz mais obrigações e exige acom­­panhamento constante. Muito complicado, tanto na hora de fazer como executar. Isso pode estar afastando o tomador do crédito”, aponta Pedro Loyola, economista da Federação da Agricultura do Paraná (Faep). “Existem requisitos diferenciados que demandam mais tempo na análise. Esse tempo processual tende a ser menor em função das melhorias implementadas nas plataformas para o próximo Plano Safra”, rebate Renato Viana Gonçalves, secretário-geral do grupo gestor do Plano ABC Paraná.
 
O próprio Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Ma­­­­­­pa) re­­conhece as dificuldades para obtenção de crédi­to via ABC. Mas afirma que o processo es­­tá melhorando. “Estamos interagindo com os agentes financeiros e buscando solucionar os entraves para tornar mais rápida a análise”, afirma Caio Rocha, secretá­­rio de Desenvolvimento Agro­­pecuário e Cooperativismo do Mapa.
Remuneração
Além dos obstáculos burocráticos, o desinteresse dos técnicos do setor agrava a situação. Para Karine Gomes Machado, analista de agricul­­tura e política agrícola da Fe­­deração da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Fa­­mato), há profissionais suficientes no mercado, porém a baixa remuneração (2% do valor total do recurso) não empolga.
 
“A grande dificuldade é achar assistente técnico que elabore os projetos e se comprometa em acompanhar, pois consideram muito tempo para o baixo valor”, aponta. “Algumas vezes, o próprio técnico induz o produtor a procurar outra linha de financiamento.” A Famato pediu formalmente que o Mapa dobre a remuneração dos técnicos (a 4%).
 
Migração
As dificuldades encontradas pelos agricultores estão gerando um efeito migratório dentro do programa de recursos agrícolas do governo federal. Mesmo quem teria interesse no ABC, principalmente para recuperar áreas de pastagens degradadas, acaba optando por outros financiamentos. Linhas como Pronamp e PSI registraram crescimento na liberação de crédito nesta safra na ordem de 15% e 28%, respectivamente. “Existem várias linhas que acabam concorrendo entre si. Todo o crédito rural está crescendo e o ABC ficando para trás”, lamenta Loyola.
 
Oportunidade: Com capacitação, Paraná tenta aproveitar recursos disponíveis
 
O Paraná vem apostando em capacitação para aproveitar os recursos disponíveis no Programa ABC. Cerca de 10 mil produtores e técnicos foram envolvidos em cursos rápidos – o maior número entre os estados agrícolas. Mesmo assim, o estado também registrou queda nos valores acessados.
 
Até março deste ano, R$ 116 milhões foram liberados aos produtores paranaenses via ABC. Na safra 2012/13, os recursos disponíveis pelo programa de baixo carbono alcançaram R$ 270 milhões. Assim como o montante financeiro, o número de pedidos também diminuiu. Foram 685 solicitações na atual temporada contra 1.099 no ciclo anterior.
 
De abril a junho, o estado dificilmente atingirá os patamares da temporada passada. Estão em análise projetos que somam R$ 70 milhões. O valor engloba 200 pedidos.
 
R$ 80 milhões ainda não buscados pelos produtores terão de ser liberados em um mês para que o Paraná tome o mesmo volume de verbas acessado pelo programa ABC em 2012/13.


Fonte: AgroGP

 
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