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Principais pragas da Cana-de-Açúcar
Este artigo tem por objetivo dissertar sobre 3 das principais pragas que afetam os canaviais atualmente, sua importância, danos, métodos de controle e manejo.
1- Cigarrinha-da-raíz (Mahanarva fimbriolata)
cigarrinha
Existem várias espécies de cigarrinha que causam grandes prejuízos na cultura da cana-de-açúcar, como por exemplo a cigarrinha-da-raiz, cigarrinha-da-folha, cigarrinha-do-cartucho (todas do gênero Mahanarva). Daremos uma maior atenção a cigarrinha-da-raiz.
Com o crescente aumento da colheita mecanizada que proporciona que praticamente toda a palha da cultura fique no campo, a cigarrinha ganhou uma maior importância nos canaviais. A palha proporciona que a umidade que fique por mais tempo no solo, favorecendo o desenvolvimento dos insetos. Anteriormente com as queimadas, parte dos ovos e adultos eram destruídos com o fogo.
A fêmea tem coloração uma coloração marrom escura, enquanto o macho e mais avermelhado. O inseto coloca seus ovos na parte basal da touceira, e produz uma espécie de “espuma” branca para manter a umidade dos ovos e das futuras ninfas. Essas passam a sugar a seiva das raízes da cana, os adultos vivem na parte superior da planta e sugam a seiva da parte aérea da planta.
O ciclo médio é de 80 dias, 15 a 20 dias para os ovos, 35 a 40 dias ninfa e 15 a 20 dias adultos, ocorrendo até quatro vezes por ano (4 gerações/ano).
Os principais danos observados são desnutrição das plantas, ocasionada pelas ninfas que sugam a seiva das raízes, dificuldades de brotação, atrofia de colmos, o que acaba levando a um menor teor de açúcares, uma matéria prima de menor qualidade, perda de produção(t/ha) e a chamada queima das folhas causada por toxinas liberadas pelos adultos quando sugam a seiva.
Para realizar o controle desses insetos utiliza-se 3 métodos: o químico, biológico e cultural, e o mais indicado é o manejo integrado de praga, M.I.P, que segundo a FAO: é o sistema de manejo de pragas que no contexto associa o ambiente e a dinâmica populacional da espécie.
O controle químico é realizado com inseticidas aplicados na linha da cultura, geralmente no método chamado corte de soqueira. Alguns do inseticidas utilizados para o controle são Curbix 200 SC na dosagem 2,5 a 3,0 L/há (produto comercial) ou 500 a 600 g/há (ingrediente ativo), Evidence na dosagem 0,75-1,0 L/há (produto comercial) ou 360-480 g/há (ingrediente ativo) e DiamanteBR na dosagem 0,75-1,0 L/há (produto comercial).
O controle biológico é muito utilizado atualmente por ter um baixo custo e ser muito eficiente. O controle biológico com o fungo Metarhizium anisopliae é o mais utilizado atualmente justamente por ser muito econômico e não agredir o meio ambiente. Os conídios germinam e penetram no tegumento do inseto num período de dois a três dias. O período de colonização ocorre de 2 a 4 dias e a esporulação em 2 a 3 dias, dependendo das condições do ambiente. O ciclo total da doença é de 8 a 10 dias (Alves, 1998). Para que o fungo se prolifere e possa controlar a cigarrinha é fundamental que aja umidade no solo.
Sobre o nível de controle para a tomada de decisão recomenda-se que quando a população de ninfas estiver entre 0,5-1 ninfa/m linear se inicie o controle com certa de 3 kg/há do fungo evitando que a população atinja níveis preocupantes. O monitoramento e levantamento deve ser feito a cada 15 dias nas áreas com variedades mais susceptíveis (SP 70 1816, SP 80 1842, RB 82 5336, RB 85 5536, entre outras) ou a cada 30 dias nas áreas com variedades menos susceptíveis (SP79-1011, entre outras), a amostragem deve ser feita em 4 pontos de 2 metros por há ou 8 pontos de 1 m por há.
Além do fungo Metarhizium anisopliae outros inimigos naturais da praga também podem ser utilizados para controle de cigarrinha como por exemplo, a mosca Salpingogaster nigra que é predadora de ninfa, e o fungo Baktoa apiculata parasita de adultos.
O controle cultural pode ser realizado com retirada total da palhada ou destruição mecânica da mesma, por expor o solo ao calor prejudicando o desenvolvimento dos ovos e ninfas, além do uso de variedades resistentes ou menos susceptíveis a praga como por exemplo a SP79-1011.
 
2- Sphenophorus levis
O bicudo da cana-de-açúcar, como é conhecido o Sphenophorus levis, é muito importante atualmente por ser responsável por causar grandes danos aos canaviais atualmente e reduzir a longevidade dos mesmos, e isso se muito pela dificuldade de controle dessa praga de solo. Em 1989 é praga se tornou conhecida na região de Piracicaba, onde chegou a causar perdas em torno de 50% no perfilhamento de cana planta.
O inseto tem pouca mobilidade no solo e sua disseminação de uma região para outra, dá-se através de mudas infestadas pelo inseto. Seu ataque no canavial ocorre em reboleira, ou seja, uma planta perto da outra. Ele tem aproximadamente 15 milímetros de comprimento e tem coloração marrom. A fêmea coloca os ovos abaixo do nível do solo, nos colmos em brotação. Após aproximadamente 10 dias as larvas eclodem e fazem galerias nos colmos em brotação para se alimentarem, após 50 dias, a larva utiliza-se das “serragens” da galeria para transformar-se em pupa. Essas tornam-se adultos em cerca de 12 dias. Os machos vivem em torno de 200 dias e as fêmeas 220, ambos nas bases das touceiras.
sphenophorus 1
sphenophorus 2
Anteriormente acreditava-se existir picos populacionais de adultos nas épocas mais quentes dos anos, mas estudos recentes vem mostrando que a população não flutua tanto durante o ano. O mesmo pode se dizer das larvas (diferença é que os picos eram em épocas diferentes, outubro e março para adultos e dezembro e julho para larvas).
Os principais danos são falhas de brotações, coração morto, por consequência das injúrias ao longo dos anos e redução no desenvolvimento da planta, uma reforma se torna iminente, e ela ocorre em pouco tempo (2-3 anos). As perdas podem chegar a 30t/há, mostrando o porquê é trata e estudada com muito cuidado atualmente.
Para o controle do besouro o que vem sendo utilizado é a destruição mecânica de áreas com altos índices de infestação na época correta, aliado com uso de inseticidas no plantio como o Fipronil 800WG ou Engeo Pleno, por exemplo, e com uso de iscas tóxicas para adultos.
A aplicação de inseticidas nas soqueiras ocorre na modalidade drench e corte de soqueira principalmente. Alguns produtos muito utilizados são o Engeopleno, Regent Duo e Talisman.
3- Broca (Diatraea saccharalis)
 
É considerada a principal praga da cultura devido aos grandes prejuízos que causa, é uma praga que ataca o colmo da cana-de-açúcar, a lagarta abre galerias no interior dos colmos onde se alimenta e causa inúmeros danos a planta.
A broca da cana na verdade é uma mariposa, que coloca seus ovos nas folhas da cana, esses nascem de 4 a 9 dias após e alimentam-se, no início, das folhas pequenas e entram no colmo através da bainha onde fazem as galerias e passam em torno de 60 dias até entrar na fase de pupa que dura de 10 a 14 dias, quando se torna uma mariposa (4 a 7 dias) o ciclo recomeça, sendo que podem ocorrer 4-5 gerações anuais.
broca
 
Os danos diretos causados pela broca da cana-de-açúcar são perda de peso, morte das gemas apicais e dificuldades de brotação e perfilhamento, coração morto, “isoporização” e consequente quebra dos colmos, além de brotações áreas e laterais, dificultando o acúmulo de sacarose e reduzindo sua qualidade.
Devido aos buracos e galerias abertas pela broca alguns microrganismos acabam entrando nesses orifícios e causando danos secundários, como por exemplo o fungo Colletotrichum falcatum, que causa a podridão vermelha; essa doença acaba prejudicando a produção e a qualidade do produto para a comercialização e a industrialização (Rago e Tokeshi, 2005), pois causa a inversão de sacarose e escurecimento dos açúcares.
Alguns fatores que vem contribuindo para o aumento da infestação são:
• Plantio de variedades mais suscetíveis;
• Aumento das áreas fertirrigadas (nitrogênio);
• Aumento das áreas colhidas mecanicamente;
• Expansão do plantio de milho, sorgo, milheto;
• Aplicação equivocada de agroquímicos;
• Erros de amostragem;
• Condições climáticas;
 
Para saber o momento de realizar o controle deve fazer o levantamento da praga, esse levantamento ocorre a partir de canas com 3 entrenós, analisando 10 metros lineares (2 linhas de 5m).
A Intensidade de Infestação (I.I%) é a porcentagem de entrenós brocados em relação ao total de entrenós examinados e possibilita uma estimativa de queda de produção, pol e ATR no processamento industrial. O recomendado é iniciar o controle com o I.I maior ou igual a 3%. Com a Intensidade de Infestação em cerca de 1% estima-se uma perda com valores médios próximos de 350 gramas de açúcar e 200 mililitros de álcool a cada tonelada de cana levada à indústria, deixando uma quebra de cerca de 0,70% de peso em toneladas de cana (cerca de 7 kg). Esses valores aparentemente podem não parecer significativos mas quando utilizados esses valores para um I.I próximo de 10 % os valores passam para aproximadamente 35 kg de açúcar, 20 litros de álcool e quase 1 tonelada de cana a menos, números que assustam e é um prejuízo que a Usina não pode ter.
O controle químico aliado com o biológico é o mais recomendado e utilizado atualmente (M.I.P.), em alguns locais usa-se o controle cultura com o uso de variedades resistentes ou menos susceptíveis, moagem rápida após o corte, entre outros.
Para o controle químico da broca alguns dos inseticidas e dosagens utilizados são Regent 800WG no sulco de plantio dosagem 500 g/há (produto comercial) ou 400g/há (ingrediente ativo), Cetero dosagem 50 mL/ha (produto comercial) e na dosagem de 24 g/há (ingrediente ativo) aplicado em pulverização aérea, entre outros.
Já o controle biológico, é realizado com duas vespas geralmente utilizadas de maneira associada, são elas Trichogramma galloi ou Cotesia flavipes, que chegam a reduzir a infestação em 70%.
A primeira é uma vespa parasita de ovos da broca, a recomendação é que a liberação seja em torno de 200 mil adultos por hectare em três liberações sucessivas. A segunda é uma vespa parasita de adultos, ela coloca seus ovos na broca e suas larvas se alimenta da mesma, matando-a. Recomenda-se 6000 adultos por hectare. Para que esse controle seja eficiente o monitoramento e liberação de vespas tem que ser frequente.
Bibliografia:
Alexandre de Sene Pinto, P. S. (2009). Guia ilustrado de pragas e insetos benéficos da cana-de-açúcar.
ALVES, S.B. Fungos entomopatogênicos. In: ALVES, S.B. (Ed.). Controle microbiano de
Insetos. Piracicaba: Ed. FEALQ, 1998. Cap.11, p.289-381.
CHIAVEGATO, L. G. Manejo de ácaros. In: CROCOMO W. B. (Org.). Manejo integrado de
pragas. Botucatu, SP: UNESP, p. 233-248, 1990.
CROCOMO, W.B. Manejo Integrado de Pragas. Botucatu, Ed. UNESP. 358p. 1990.
GALLO, D.; NAKANO, O.; SILVEIRA NETO, S.; CARVALHO, R.P.L.; BATISTA, G.C.; BERTI FILHO, E.; PARRA, J.R.P.; ZUCCHI, R.A.; ALVES, S.B.; VENDRAMIM, J.D.; MARCHINI, L.C.; LOPES, J.R.S.; OMOTO, C. Manual de Entomologia Agrícola. 3º ed., Piracicaba: FEALQ, 2002. 920p.
RAGO, A. & TOKESHI, H. Doenças da Cana-de-açúcar In: KIMATI, H.; AMORIM, L.; BERGAMIN FILHO, A.; CAMARGO, L.E.A.; REZENDE, J.A.M. (Eds.) Manual de fitopatologia: doenças das plantas cultivadas. 4. ed. São Paulo: Agronômica Ceres, 2005. v.2, p. 185-196.
 
Douglas Michelin Matheus


Fonte: Esalq

 
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