Modelo de comercialização do etanol é engessado e frágil

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Modelo de comercialização do etanol é engessado e frágil
Fonte da Imagem: https://pbs.twimg.com
Os desafios do etanol nos mercados brasileiro e norte-americano foram tema de debate nesta terça-feira (22) em encontro do setor sucroenergético em uma conferência internacional promovida pela Datagro, em São Paulo.
Martinho Ono, da SCA Corretora S/A, diz que entre os problemas fora da porteira para o setor está a precificação do etanol anidro com base no hidratado.
As usinas que vendem anidro estão capitalizadas, enquanto as que vendem hidratado, de uma forma geral, estão descapitalizadas.
A necessidade de vendas de hidratado não permite uma alta nos preços.
Ono diz, ainda, que o anidro deveria ser tratado como aditivo e que o preço justo de comercialização deveria ser R$ 2 por litro na usina. Na semana passada, o etanol anidro -o que vai misturado à gasolina- foi negociado, em média, a R$ 1,41 por litro nas usinas. O hidratado -o que vai diretamente ao tanque- esteve a R$ 1,23, segundo o Cepea.
O anidro não deve ser redutor dos preços da gasolina, mas seguir a gasolina A (de maior valor), afirma ele.
O sistema de comercialização também não atua a favor do etanol. Esse sistema está engessado a um modelo que utiliza o retrovisor para definir preços.
Sem negociações no mercado futuro, os preços não evoluem, uma vez que há muitos vendedores e poucos compradores.
Apenas quatro distribuidoras ficam com 80% das vendas de 300 usinas, segundo Juscelino Sousa, do grupo Coruripe.
A não evolução do mercado futuro de etanol no Brasil existe porque é muito cômodo para as distribuidoras, que, assim como está o mercado, não assumem riscos, segundo Ono.
Elas compram um produto que as usinas têm necessidade de vender e têm demanda garantida para ele.
Sem rentabilidade, o setor não consegue trazer investimentos. E esse é um problema gravíssimo, diz Tarcilo Ricardo Rodrigues, da Bioagência.
Plinio Nastari, da Datagro, diz que a comercialização do etanol ainda é frágil no país. O anidro reflete a pouca competitividade do hidratado, negociado à vista no mercado.
O setor tem dificuldades na comercialização, mas é preciso elevar também a eficiência na produção, que serve de redução de custos.
Na avaliação de Pedro Mizutani, da Raízen, o setor tem de elevar a utilização de tecnologia e se conscientizar de que o principal competidor do etanol é a gasolina.
Claro que é necessária uma política de governo mais eficiente, acrescenta ele.
Para Jacyr Costa Filho, da Tereos S/A, o país precisa reconhecer as externalidades do etanol, ou seja, os benefícios extras do produto.
Isso inclui os efeitos ambientais, os relacionados à saúde e os econômicos.
Este último significa a manutenção da indústria descentralizada pelo interior do país, mais emprego, desenvolvimento regional e "saúde financeira" de pelo menos 70 mil produtores do setor de cana.

Estados Unidos
No mercado norte-americano, um dos entraves que o setor de etanol encontra é a queda nos preços do petróleo.
Ela provoca redução nos preços da gasolina, o que acaba afetando também o álcool, segundo Joseph Harroun, da Advance Trading Inc.
Além disso, a produção norte-americana de etanol supera a demanda interna e o setor tem dificuldades em exportar.
Do lado agronômico, a queda nos preços do milho desencoraja produtores, e a evolução da mistura do etanol na gasolina é lenta.
Mas o setor tem também uma série de pontos favoráveis. Um deles é a queda nos preços do milho, matéria-prima básica da indústria.
Há uma redução das margens no setor, mas a indústria ainda tem uma saúde financeira boa, segundo Harroun.
*Texto publicado na coluna Vaivém das Commodities.
Mauro Zafalon


Fonte: Folha de S. Paulo

 
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