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A CRISE DO ETANOL TEM SOLUÇÃO?
 
Não é de hoje que o setor sucroenergé tico enfrenta uma crise no Brasil. A manutenção dos preços da gasolina em patamares praticamente inalterados nos últimos anos limita também os preços do etanol hidratado, que concorre na bomba com a gasolina, mas que - como tem eficiência menor - deve custar até 70% do valor do combustível fóssil.
 
A crise iniciada em 2009 há tempos ultrapassou o limite das usinas. O alto índice de endividamento do setor, que já supera os RS 60 bilhões, provocou o fechamento de 44 unidades nos últimos cinco anos. De acordo com levantamento da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA), outras 12 usinas estão sem condições financeiras para operar este ano. "Municípios canavieiros estão enfrentando queda acentuada na arrecadação, com forte deterioração no comércio e serviços", aponta um documento da Unica produzido no início de fevereiro.
 
Isso se deve ao fato de a maioria das indústrias que fornecem para o segmento estar registrando queda no faturamento e perdas de postos de trabalho. Sertãozinho, cidade onde se concentra a indústria de base do setor, já demitiu 50% dos funcionários que detinha em 2007. "Hoje, o setor soma 150 indústrias que contam com 10 mil funcionários", diz Antonio Eduardo Tonielo Filho, presidente do Centro Nacional das Indústrias do Setor Secroenergético e Biocombustíveis (CeiseBr).
 
De acordo com Tonielo, até o ano passado, em função dos projetos de renovação dos canaviais, as indústrias receberam alguns pedidos de equipamentos e implementos agrícolas, mas "este ano não há pedido algum em carteira", diz. O executivo calcula em RS 130 milhões a dívida das usinas com as indústrias. "Muita gente comprou e não teve condição de pagar. Por esse motivo, hoje, se há algum pedido, a indústria analisa antes se vale a pena atender", diz.
 
O comércio da cidade começou a sentir os primeiros efeitos da crise há dois anos. "Até 2010, o ritmo de contratações do comércio era crescente. Agora, estamos nos esforçando para não demitir", diz Geraldo José Zanandréa, presidente da Associação Comercial e Industrial de Sertãozinho (Acis). Outros sintomas sentidos no comércio da região são o aumento de 25% no cadastro de negativados no Sistema de Proteção ao Crédito (SPC) e maior volume de vendas a crédito em detrimento do pagamento à vista. "O comércio já usou de toda a criatividade que dispunha: promoções, substituição de itens caros por outros mais baratos, parcelamento. Não tempos mais gordura para queimar. Estamos aguardando a reação do setor sucroenergético", diz Zanandréa
 
"O segmento precisa que o governo federal defina de maneira clara qual será a participação do etanol na matriz energética do Brasil", diz José Antonio Basseto Júnior, superintendente da Clealco, que acredita que somente assim os investimentos retornem ao setor. Da mesma opinião compartilha a presidente da Única, que avisa ser pouco provável que o setor consiga cumprir o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE), aprovado pelo Ministério de Minas e Energia (MME), até 2022, que prevê a instalação de 39 novas usinas de açúcar e álcool no Brasil até 2020. "Precisamos das condições para que esse plano seja realizado. A politica atual contrasta com a visão colocada no plano", diz Farina.
Recuperação
Dados do Ministério de Minas e Energia mostram que o etanol já chegou a representar 53% dos combustíveis do Ciclo Otto em 2009, tendo sua participação reduzida para 36% em 2012. "Em 2013, já podemos observar uma recuperação, com o etanol chegando a 41%", destaca Ricardo Dornelles, diretor do Departamento de Combustíveis Renováveis do MME. De acordo com a presidente da UNICA, a intenção do setor é retomar a participação de 2009.
 
Para que isso aconteça, algumas medidas emergenciais devem ser adotadas: o aumento do anidro na gasolina, a retomada da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre a gasolina, que foi zerada em junho de 2012, e a redução do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o etanol em São Paulo. Em fevereiro, a UNICA encaminhou ao governo de São Paulo um documento sugerindo a redução da alíquota do ICMS sobre o etanol de 12% para 7%. O argumento é que a redução terá impacto positivo sobre empregos, produção industrial e geração de riqueza no Estado. Elaborado por técnicos da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), o estudo garante que as perdas que podem ocorrer na arrecadação do ICMS serão compensadas com a reestruturação do setor e a geração de 11 mil novos empregos.
 
Uma estratégia que vem sendo adotada por algumas empresas do setor é a desidratação do etanol para transformá-lo em anidro. Isso porque o etanol anidro (aquele que é adicionado à gasolina) tem mercado certo, enquanto o hidratado (que é usado para abastecer os veículos flex) tem a demanda atrelada ao preço da gasolina. Atualmente, a gasolina comercializada no Brasil contém 25% de etanol anidro. O aumento desse percentual é uma das medidas que o setor considera emergenciais para reduzir os impactos da crise. "Estamos pleiteando o aumento dos atuais 25% para 27,5%. Este índice geraria uma demanda de 1 bilhão de litros, que seria atendida com tranquilidade pelo segmento e possibilitaria reduzir as importações de gasolina", avalia Elizabeth Farina, presidente da UNICA.
 
Na avaliação de José Olivério, vice-presidente de tecnologia e desenvolvimento da Dedini - empresa que produz plantas "greenfield" para o setor -, o aumento da produção de anidro está "canibalizando" o hidratado. Para ele, o setor padece de falta de previsibilidade. "Desde o ano passado, são crescentes os pedidos para instalação de plantas de desidratação do etanol hidratado, a fim de transformâ-lo em anidro", diz Olivério. Entre 2013 e 2014, cerca de dez plantas dessas devem ser implantadas no pais. "As indústrias do setor estão vivendo basicamente desses investimentos e de alguns outros para reduzir os gargalos e aumentar os fluxos das usinas já em operação", completa o executivo da Dedini. que estima registrar este ano faturamento semelhante ao do ano passado, de R$ 500 milhões.
 
A indústria da cana também busca ampliar a produção de bioeletricidade. "Temos no Estado de São Paulo um potencial estimado em 11.000 megawatts, que pode ser produzido a partir do bagaço da cana", diz Olivério. Para viabilizar a oferta dessa energia, seria necessário construir 200 plantas térmicas no Estado, ao custo médio de R$ 140 milhões cada usina de 50 megawatts, que começariam a vender energia em, no máximo, dois anos. Olivério entende que o momento é oportuno para a implementação desse projeto, mas reconhece que a viabilidade da bioeletricidade no Brasil também depende de uma política de apoio por parte do governo federal.
 
O grupo sucroenergético Clealco parece estar sentindo menos os efeitos da crise. A empresa tem planos ambiciosos para os próximos cinco anos: pretende continuar a aquisição de usinas na região de Araçatuba, no oeste do Estado de São Paulo, e a expansão da produção de cana, açúcar, etanol e energia (produzida a partir de biomassa). No ano passado, a Clealco realizou o único negócio de que se tem notícia no segmento, arrematando em leilão a compra da Usina Campestre, em Penápolis (SP), por R$ 187 milhões. A planta estava em recuperação judicial e ficou fechada de maio a dezembro de 2013, mas, sob a gestão da Clealco, foi a primeira do país a iniciar a moagem da cana da safra 2014/2015, em meados de fevereiro. 
 
A nova aquisição permitirá ao grupo elevar em 20% o processamento de cana na safra atual, para 10,5 milhões de toneladas. Além disso, a retomada da produção na Usina Campestre reestabeleceu 2 mil empregos e reaqueceu o comércio local, que ficou paralisado no período em que a usina se manteve fechada. "No início deste ano, já foi anunciada a instalação de um shopping, um supermercado e de um hotel no município", comemora o prefeito Célio de Oliveira.


Fonte: Revista Globo Rural

 
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